Aproveitando o burburinho em torno do parto da Duquesa Kate Middleton, hoje vamos tratar da dificuldade de se ter um parto humanizado no Brasil.
Esse texto não é de autoria nossa, mas por se tratar de um tema muito atual, convidamos uma leitora amiga para publicar um de seus relatos pessoais sobre o assunto.
Se até o parto REAL foi NORMAL, porque aqui no Brasil essa modalidade é tão pouco escolhida e a Cesárea reina?!
Desde criança eu ouço que o parto normal dói, mas não é nada demais. Minha mãe teve 4 filhos de parto normal, o segundo foi pélvico (bebê sentado), sempre relatou que os 4 foram diferentes, e foram experiências únicas. Ainda quando criança perguntava para as minhas tias (acho que todas pariram tb) como era, e a resposta era a mesma: dói, mas não é nada demais, vc esquece no mesmo momento que o bebê sai, é uma experiência maravilhosa e vale a pena! Então para mim, o normal sempre foi parto normal, e eu não nunca tive medo disso, não via o por quê de sentir medo.
Há 4 anos atrás uma de minhas irmãs engravidou e ela nunca teve dúvidas que preferia a via vaginal para trazer seu filho ao mundo. Claro que foi apoiada pela sua família (partilhamos do mesmo sentimento, sem tabus, que o parto normal é normal, fisiológico, nada demais), mas não demorou para começarem a julgar sua escolha, a chamando de louca, cerceando-a e minando-a com coisas do tipo: "nossa, como vc é corajosa!" ou "parabéns, pq parto normal dói muito!".
Até então não conhecíamos como funcionava o sistema obstétrico no Brasil. Simplesmente achamos que bastava a mulher escolher como gostaria de ter seu bebê, escolher um obstetra, e que seria respeitada sua escolha. Caso houvesse alguma contra-indicação seria feito o necessário e pronto!
Mas não....mera ilusão. A sociedade não ajudava e a médica do plano de saúde também não. Não falava sobre o parto, não planejava o parto. A gente começou a ficar insegura se isso realmente iria acontecer, a gestação avançava, a insegurança aumentava na gestante, e ficava sempre mais difícil trocar de médico. No final da gestação o bebê estava sentado, era tudo que a médica precisava para agendar uma cesariana. E assim foi feito. Achamos que isso era uma indicação real de cesariana e que o parto não tinha acontecido pq Deus não quis. Mas depois, estudando, pudemos perceber que essa não era uma indicação para submeter a minha irmã à todos os riscos de uma cirurgia de médio a grande porte, fora do trabalho de parto, adicionando riscos de complicações respiratórias entre outras ao meu sobrinho. Haviam outras alternativas, que não foram dadas à minha irmã, e nós, não tínhamos informações suficientes para questionar, confiamos na médica e ponto!
Algumas semanas depois descobrimos que a minha outra irmã estava grávida, essa enfermeira. Já com a experiência da gestação na família e mais os conhecimentos técnicos, estudou mais ainda, procurou uma equipe mais voltada ao parto, mas foi quase a mesma história. 9 meses não foram suficientes para nos informarmos de tudo o que precisávamos, e ela também foi submetida à uma cesariana, mesmo não sendo essa sua 1a escolha desde a concepção.
E assim, durante alguns anos eu vi primas, amigas, colegas e conhecidas desejarem um parto normal e não serem apoiadas, serem desencorajadas pelas famílias e pelos obstetras, que as levavam para a cirurgia sem indicações reais, apenas fictícias (não descritas nas literaturas médicas) mas que para mulheres sem conhecimento técnico, aliado ao alto grau de ansiedade e um momento de fragilidade, sempre achavam que realmente a cirurgia era necessária.
O estudo continuou e depois de cerca de 3 anos uma das minhas irmãs estava grávida novamente, e disposta a ter sua oportunidade de parir. Assistimos ao filme "O Renascimento do Parto" e depois de algumas situações ela percebeu que se quisesse mesmo trazer seu filho de parto normal ela tinha que trocar de médico. Estudamos muito para achar algum obstetra que não mentisse, não enganasse, que não dissesse que iria fazer um parto e nas últimas semanas da gestação inventasse uma indicação falsa de cesariana. Achamos um conceito que atendia esses requisitos, uma palavra que fazia toda a diferença: humanização.
Para isso ela teve que desembolsar uma grana alta, mas tudo correu como toda gestante merecia, teve sua escolha respeitada, e mesmo após uma cesárea anterior (vencendo um mito de que uma vez cesárea, sempre cesárea) trouxe meu afilhado por parto normal.
Logo que chegou no quarto eu levei um susto com a disposição dela, visto o que presenciei quando ela e a minha outra irmã tiveram seus filhos por cirurgia, chegando no quarto sob efeitos nítidos da anestesia, com os cuidados de pessoas operadas. Assim que tive oportunidade quis logo saber como foi, ela sorriu e disse que foi ótimo, que ficou esperando aquela dor absurda e que ela não veio como todo mundo falava!
Pronto: havíamos conseguido vencer o sistema obstétrico brasileiro, que não respeita a autonomia, escolha e protagonismo da mulher no parto.
MAAAASSS, só conseguimos pq ela teve DINHEIRO para pagar para ser respeitada, para não inventarem uma indicação fictícia de cesariana nos últimos momentos da gravidez.
E uma pergunta não saiu mais da minha cabeça: E as mulheres que querem parir e não podem pagar??? E se por ventura eu engravidar e não puder pagar por isso, o que vai acontecer comigo e com todas as outras mulheres?
2 caminhos:
ou elas vão parir no SUS, tendo um parto normal anormal ( cheio de violência obstétrica - assunto para outro post- já adiantando minhas condolências à todas as mulheres que passaram por isso), cheio de intervenções médicas mal indicadas e agressivas e equipe despreparada, muitas vezes sem poder sequer ter seu marido ao lado.
Ou elas vão procurar o obstetra do plano que diz que vai fazer o parto normal dela e no final vai inventar que seu bebê está em sofrimento ( circular de cordão, pouco líquido, muito líquido, e por aí vai - aí ele marca a cesárea pro dia seguinte - oi? Se meu bebê está em sofrimento eu tenho que ir pra cirurgia AGORA, não doutor?) ou ele logo já lima esse assunto e diz que a cesárea é bem mais segura que o parto normal, que hoje em dia nenhuma mulher sabe parir, não são feitas para isso, e inventam logo um defeito pro corpo da mulher (muito gorda ou muito magra, muito sedentária ou atleta, pressão alta ou pressão baixa, etc...).
*médico do plano não faz PN, salvo raríssimas exceções.
*faço aqui uma generalização! nem tudo que está escrito por mim é regra! mas é a esmagadora maioria e realidade.
*me incluo nessas conquistas, pois acompanhei todas as frustrações e conquistas das minhas irmãs.
Também vi mulheres que escolheram ter seus filhos por cirurgia, nunca cogitaram PN e foram respeitadas. Eu respeito a escolha da mulher, ela não deve ser obrigada a nada, muito menos parir de uma maneira que ela não quer! Uma escolha consciente, sabendo de todos os riscos e benefícios é uma escolha, e deve ser sempre respeitada! Mas escolha sem informação não é escolha....
Então: PQ SÓ A MULHER QUE ESCOLHE CESARIANA TEM SUA ESCOLHA RESPEITADA?
PQ AS MULHERES QUE QUEREM TER PARTO NORMAL TEM QUE PAGAR PRA SER RESPEITADA?
Isso é justo?
Cada dia mais feminista e cada dia mais consciente do valor do emponderamento feminino, nunca vou me sentir indiferente às injustiças com meu gênero, com as mulheres! Por isso hoje, depois de muito estudar e conhecer um mundo novo, pelo simples fato de obter conhecimento sobre essas questões, consegui ajudar algumas mulheres a encontrarem médicos e suas equipes maravilhosas, podendo ter seu momento mais único na vida, sendo tratado com RESPEITO! Eu nunca vou deixar de ajudar uma mulher que precisa, muito menos uma grávida perdida e acuada por um sistema violento e ganancioso! Prazer, sou ativista da humanização do parto! Por mais amor e mais RESPEITO à mulher e ao nascimento!
Por Marcela Chagas

Minha filha nasceu de PN no hospital Pasteur no Meier com médicos plantonistas! Lá eles não fazem cesárea sem realmente ter uma indicação médica! Meu TP foi dureza pois tive muitas dores na coluna devido um problema crônico! O parto em si foi moleza não durou nem 5 min! Primeira força e ela nasceu! Linda e saudável! Na hora seguinte eu já estava falante e animada com minha princesa no colo!
ResponderExcluirQue bom que deu td certo!! Esperamos que as pessoas tenham tds as informações para que possam fazer as melhores escolhas para si, assim como vc e seu obstetra!
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